domingo, 6 de agosto de 2017

As definições de "viver" foram atualizadas com sucesso!

Já bem dizia Mário Quintana que "viajar é trocar a roupa da alma". Não é a toa que a frase é uma das mais citadas entre quem gosta de colocar o pé na estrada e, neste post, vou cair no lugar comum e mencionar Quintana também. Afinal, quem não volta diferente de uma viagem, um tiquinho que seja, "viajou errado"!!! Ou melhor, o que é mesmo "certo" e "errado"? Mais do que conhecer lugares diferentes - e postar milhões de fotos - sinto que viajar é conhecer um pouquinho mais de si mesmo. Impossível ser a mesma pessoa depois de ver tanta coisa nova, tanta gente nova, tantos modos de viver e de ser diversos aos que estamos habituados. Eu sempre volto diferente das minhas viagens. Não sei se melhor ou pior (o que é mesmo melhor e pior?)... mas diferente. Então resolvi escrever!

Quadro na parede de um restaurante em Bariloche respondendo
 a uma das milhões de reflexões que surgem no decorrer de uma viagem

Malas desfeitas, roupas lavadas secando no varal, geladeira - que estava vazia - reabastecida. Acaba a viagem, vc põe a vida em ordem pra retomar a rotina e o que fica (além do celular com a memória lotada de fotos)? No meu caso, depois de cada viagem, seja ela qual for, fica uma nova pessoa, um "novo eu". Não consigo voltar "a mesma" dos lugares que visito, principalmente se fico mais de dois ou três dias. Perceber o dia-a-dia das pessoas que vivem no destino da viagem... observar os outros viajantes pra lá e pra cá, vindos de todos os cantos do planeta... relembrar que nossa percepção de tempo / espaço / dimensão desse mundo de meu Deus é bastante limitada... tudo isso mexe DEMAIS comigo!

Voltei ontem a noite de viagem. Desde que desembarquei, até agora, estou meio que "em alfa". Um estado flutuante, meio que tentando me situar. Nas poucas viagens que já fiz na vida, sempre voltei assim, como se tivesse "saído da bolha"... e que bom que é assim! É impossível - pelo menos pra mim - se manter o mesmo depois de ver tanta coisa nova e diferente. Começa pela distância. Não importa se você roda uns 100 quilômetros de ônibus pra chegar a algum lugar ou sobrevoa milhas e milhas até seu destino. Tentar dimensionar o tamanho do mundo e o tanto de gente vive nele é um troço doido. Sempre que vejo, da estrada, uma casinha pequenininha no alto de um morro, ou um prédio grande que se destaca no meio da selva de pedra de uma cidade, vista de cima, do avião, imagino quem vive ali. O que faz (o que come? Veja no Globo Repórter!!! hahahah). É besta, parece ridículo, eu sei, mas meu pensamento viaja e acho (ou melhor, tenho certeza) de que pensar é o que muda a gente!

Essa minha última viagem não foi para um lugar longíquo e inóspito que me despertasse profundas reflexões sobre a existência humana, pelo contrário! Foi pra Bariloche, destino que tem o maior número de brasileiro por metro quadrado que já vi na vida. Aquele típico lugar onde a gente se sente meio que "seguindo a boiada" por ter tanta gente que vai lá pra fazer a mesma coisa - ver a neve. Sabendo disso, imaginei que essa viagem não mexeria tanto comigo, mas não foi assim. Não importa se o lugar é um point turístico ou um destino pouco explorado... quando você apura seu olhar - e ouvidos e tato e paladar e coração - qualquer passeio pode se tornar marcante, transformador!

Em Bariloche, a sensação de "estar em casa" por conta do burburinho em português em todos os lugares, faz com que a percepção fique aguçada pelo próprio modo familiar como cada um age. Quando estamos no meio só de estrangeiros, não conseguimos "pegar no ar" a que cada um veio. Já entre os "nossos", dá pra sacar quem é o casal que está ali num clima mais romântico, quem são os super esquiadores que devem aparecer sempre por lá, quem são as famílias que - como eu - foram levar as crianças pra ver a neve. Aí, em português, é muito mais fácil trocar experiências na fila do teleférico, na mesa vizinha do restaurante, no elevador do hotel. Acho que nunca conversei com tanta gente em uma única viagem.

O que também sempre me pego fazendo - onde quer que eu vá, que seja no centro da minha própria cidade - é notar quem é o recepcionista do hotel... o motorista do táxi... a moça da bilheteria de alguma atração. Aí quando eles vivem num lugar turístico, já vou logo perguntando se são dali, se mudaram pra lá pra trabalhar com turismo, se aquela temporada está sendo boa. Às vezes me pergunto se é a jornalista, repórter, entrevistadora que (ainda) mora em mim que me fazem ser assim, mas não tenho certeza. Porque tudo o que descubro - ou "apuro", como a gente diz no jornalismo - é pura e simples curiosidade. Saber do outro me acrescenta. Os desafios que enfrenta, a satisfação que tem, o que representa estar ali no meio da neve dando informação sobre qual teleférico pegar para ter a melhor vista da estação de esqui!

É tanta gente e são tantas coisas a observar que fica ainda mais latente minha necessidade de tentar absorver o contexto de tudo ao redor. Então, eu - que sou pura sensibilidade - me pego refletindo sobre a frase do Quintana, aquela que mencionei no início e que fala sobre trocar a roupa da alma. Despir-se das crenças, das certezas, das verdades absolutas, viajar faz tudo isso! Faz, principalmente, pensar que esse mundo é tão vasto, tão plural, com tantas possibilidades, que bate aquele questionamento inerente a gente como eu, que quer se descobrir cada vez mais: será que estou mesmo vivendo como gostaria de viver? Será que estou vivendo mesmo a minha verdade? Porque cada um tem a sua e cada um pode - e deve! - buscar viver a sua verdade, sem se preocupar com padrões.

Pensando em tudo isso - e mais um pouco! - enquanto desfazia as malas, lembrei do quadro que vi na parede de um restaurante em Bariloche, com uma frase do chileno Alejandro Jodorowsky, que em livre tradução diz: "Onde você está hoje é onde você deveria estar. Confie. Todos os lugares são apenas parte da viagem". E assim sigo viajando nos meus devaneios... mesmo depois de terminar a viagem! Espero ainda poder trocar e destrocar muitas e muitas vezes a roupa da alma. Ver novos lugares, descobrir novas formas de viver, de viajar, de ser! Viajar é viver e - mesmo sendo pra "Brasiloche" - minhas definições de "viver" foram atualizadas com sucesso!

Até mais! 😉